Home / REFLEXÕES / O QUE É SER HUMANO?

O QUE É SER HUMANO?

O QUE É SER HUMANO?

por Hudson A. R. Bonomo

Como psicanalista que busca um fio de saída para as angústias humanas, me pergunto: O que ainda tem o ser que sofre? E o adoecido? Lá no DNA do animal humano, existe algo que pode afetá-lo em seu momento de profundo desespero e confusão? A seguir resumo estas reflexões sobre o que considero parte da essência de SER HUMANO e que possa ajudar a reestabelecer as bases para atravessar a nossa jornada de vida:

  • É INCOMPLETO
  • É CAPAZ DE AJUDAR OUTRO SER HUMANO
  • SE ADAPTA A QUAISQUER CIRCUNSTÂNCIAS
  • É OBRIGADO A FAZER OPÇÕES
  • É UM SER DE TRADIÇÕES
  • QUESTIONA A SUA PRÓPRIA DOR

É INCOMPLETO

O ser humano é eternamente um “ser em falta” e, portanto, “sempre desejante”. É por estar sempre incompleto ele é instável. Existe um contínuo devir, um fluxo de desejos e frustrações que deveriam levar a um aprendizado contínuo, o que nem sempre ocorre.

O que fazemos com esta instabilidade? Tentamos construir uma identidade: mapeamos a nós mesmos com a ilusão de que este mapa é inalterável. Fazemos narrativas (partes do mapa) de nós mesmos buscando amparo nesta construção de identidade, achando de forma ilusória, que podemos impedir o fluir – o tal “contínuo devir”.

Tente se incluir agora: O que você mapeou para ser inalterável? O que te ilude que a vida não é instável? O que te dá uma falsa sensação de controle? Que discurso utiliza sobre você e que acha que o mundo não vê o oposto? Porque não curtimos esta instabilidade que é decorrente de ser naturalmente incompletos, que é ser humano? Somos rígidos em criar discursos sobre nós mesmos, um lamuriar que não acaba, ou um se gabar continuo que afasta.

Veja que por sermos incompletos, faltantes, somos desejantes. O desejo é importante e nos move, ou sentaríamos e choraríamos o dia todo sem parar. Entretanto nesta reflexão cabe também questionar a qualidade dos desejos e como lidamos com as frustrações decorrentes, já que é inevitável que não alcancemos tudo que desejamos. O amadurecimento vem desta capacidade de aprender com a frustração, e ter desejos de melhor qualidade que atendam as seguintes perguntas: Eu quero isto realmente? Eu realmente preciso? Eu tenho condições de alcançar o desejo? É bom para mim se o desejo se concretizar?

Esta sensação de “está faltando alguma coisa” sempre estará conosco, cabe aceita-la como condição humana e viver bem com isto, sempre como a oportunidade de enfrentar o novo a cada instante, este eterno devir que é a própria vida.

É CAPAZ DE AJUDAR OUTRO SER HUMANO

Aqui temos a característica que nos coloca em grupos. Como falei no item anterior, buscamos um discurso que nos mapeie, que nos defina. Para formar uma identidade nos definimos em grupos: nação, religião, família, etnia, gostos, estilos, etc. Isto se torna nocivo para nós quando buscamos segurança psicológica em algum grupo específico e perdemos de alguma forma a essência de que podemos transitar por todos os demais grupos, porque todos são seres humanos. Estender a mão ao outro, estar-com-o-outro, o que chamamos de compaixão está no nosso DNA e não deveria ser limitado pela cultura.

SE ADAPTA A QUAISQUER CIRCUNSTÂNCIAS

Uma característica essencial, nos adaptamos a qualquer situação. É o que levou a sobrevivermos como raça as intemperes climáticas, a força dos demais animais, as inúmeras faltas. Temos isto em nosso DNA, e se não conseguimos nos adaptar, é por conta de alguma falha no equipamento (risos).

É OBRIGADO A FAZER OPÇÕES

Esta dói bastante, porque quando escolhemos uma das opções somos obrigados a excluir as demais. Não sabemos lidar bem com isto, nos frustra muito, e muitas vezes emperra a máquina (a cachola). Tiro certo na nossa infantilidade (de não lidar bem com frustrações). Travar e se recusar a tomar decisões é ir contra a sua própria humanidade.

É UM SER DE TRADIÇÕES

De novo a questão de grupos e da identidade. Hoje em dia está se perdendo isto de tal forma, devido a vários fatores, que as pessoas não sabem mais o que fazer. Infelizmente a maioria que seguia as tradições se perdeu completamente e ficou sem referência para elaborar o mapa de sua identidade. É quase patológico e uma questão futura muito importante para saúde mental. Cabe aproveitar este novo momento para aprender a lidar melhor com as faltas, que é essencial para a compreensão da vida e o amadurecimento.

QUESTIONA A SUA PRÓPRIA DOR

Os animais também têm consciência de sua dor, mas o ser humano pergunta a respeito das coisas. Além disto, o ser humano se surpreende e é o que instiga a investigação. Somos lúcidos, e a nossa lucidez está no sofrimento que nos revela a verdade de nossa condição humana. A verdade é o eterno devir, “a falta”, por isto: onde há sofrimento há esperança! Uma pessoa que “aparentemente” não sofre, não é visitada por uma verdade que a coloque em marcha! O sofrimento revela o modo como somos afetados pela experiência da vida.

Conseguimos assim enxergar que o sofrimento é diferente de adoecimento. O adoecimento humano é o falseamento de sua condição humana. Quando negamos o que somos: seres humanos, então adoecemos. O sofrimento transforma, mas o adoecimento não transforma (busque ajuda!).

Os 6 itens que coloquei acima como essenciais são uma forma de trazer de volta a naturalidade do que é SER HUMANO. De outra forma a vida cai na mesmice ou na compulsão a repetição, no tédio, e na depressão. Tenho certeza que não precisamos viver assim. Boa humanidade para todos!

Veja Também

IDENTIDADE SOCIAL

IDENTIDADE SOCIAL – por Hudson A. R. Bonomo A construção da identidade é social e …